29 novembro, 2016

Lágrimas por uma gueixa




Puccini, uma história passional e a estreia do pequeno explorador na ópera catapultavam as expectativas para a estratosfera. Acrescente-se ainda o facto desta obra do famoso toscano ter sido estreada, em fevereiro de 1904, no belo Teatro alla Scala de Milão, onde já tivemos o privilégio de estar (aqui). Tudo somado, o Pedrinho estava super entusiasmado com os bilhetes para a emblemática Madame Butterfly.
Os bancos do pavilhão Multiusos de Guimarães não são iguais aos belos estofados vermelhos do teatro milanês. E as temperaturas de Novembro não ajudam propriamente ao conforto. Mas não é comum este tipo de arte se desviar do circuito Lisboa-Porto, pelo que me pareceu uma oportunidade imperdível.
Assim, foi num assento duro e toda encasacada que assisti à tragédia da bela gueixa que se enamora pelo oficial da marinha americano, de seu nome Pinkerton: enredo que fui desvendando a um menino algo desapontado por não conseguir perceber o italiano cantado.

© uau produções


Duas horas e meia depois, quando cerraram as cortinas, tinha os olhos rasos de água e o Pedro ao colo, adormecido. Ah, aquele clímax quando Cio-Cio-San pega no punhal com que o seu pai cometeu hara-kiri, o suicídio ritual japonês, e lê a inscrição: "Com honra morre aquele que não mais com honra viver pode", pondo termo à vida...
A ópera tem destes milagres, somos capazes de nos alhear do desconforto e do frio, para pairarmos no limbo sublime das emoções. Todos se levantaram para aplaudir a soprano Gema Scabal e demais companheiros da Ópera del Mediterraneo excepto eu, que me desdobrava entre limpar as lágrimas e acordar o Pedro com a suavidade possível.


P.S. A produtora responsável por esta ópera apresenta, em breve, o Lago dos Cisnes, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Não acham um programa perfeito para a quadra de Natal? Mais informações aqui.

30 outubro, 2016

Homens de saia e um Jesus de cartola

Tudo começou com um convite, encontrado na caixa do correio. "Fátima & Alonso cumbidan-bos pa la sou boda que se irá a fazer ne l die 3 de setembre de 2016, pulas 15h30".






Após a perplexidade inicial, constato que o casamento será em cascos de rolha, quase em Espanha, na estranha e mítica Terra de Miranda onde existe uma catedral sem bispo, um menino Jesus que usa cartola e os homens vestem saias e xaile para a Dança dos Pauliteiros. E onde se fala mirandês, a segunda língua oficial do país.
A lonjura e o isolamento do planalto (para lá dos Montes) serviram de fronteira linguística, pelo que o mirandês sobreviveu, pelo menos até ao século XXI. Pusemo-nos a caminho no início de um Setembro perturbadoramente abrasador e descobrimos uma terra para lá de inesperada.

Ficamos hospedados numa antiga Pousada de Portugal, com uma vista magnífica sobre o rio Douro, de onde se pode ver, com um pouco de sorte, águias, abutres do Egipto e corujas. 

O casamento foi, obviamente, uma ocasião feliz. Os noivos apresentaram-nos várias tradições locais, ao longo do dia. À saída da Sé catedral, um grupo de pauliteiros exibiu a sua dança aparatosa de paus, ao som das caixas e gaitas-de-foles. 


Os pauliteiros de Miranda, com as suas lindas saias, na sua dança tradicional.


A célebre posta à mirandesa brilhou no menu do banquete. Feita com carne de lindas vacas de olhos meigos, que até têm um livro genealógico de raça, diz quem a comeu que merece toda a fama que tem. 
Como lembrança, os convidados receberam pequenas "capas de honras" mirandesas. Desconhecia e fiquei rendida. Feitas em lã de burel, para protegerem os guardadores de vacas durante os nove meses de Inverno (os outros três são de inferno), as capas pesadas e austeras não só viraram artesanato, como se transformaram em trajes usados em todo o tipo de cerimónia.

Mas o que mais me surpreendeu em Miranda do Douro foi o inverosímil Menino Jesus da Cartolinha ou, em mirandês, Nino Jasus de la Cartolica, habitante da espanholizada Sé que enverga, no alto da sua cabeça, uma cartola!!!

Habituamo-nos a imagens dele bebé ou adulto (recordem a emoção que foi ver a Pietá, aqui). Mas, aqui, Jesus é um moçoilo vaidoso de faces rosadas, com os seus 18 ou 20 anos e roupas de fidalgo. Parece um oficial de cavalaria, com espada a tiracolo, uma condecoração ao peito e uma elegante cartola. 

As capas de honras mirandesas, elevadas a monumento no centro da cidade.

© diariodetrasosmontes


A lenda que ajudou à sua criação pode estar relacionada com a Guerra da Restauração da independência (1640-1668) ou com a Guerra da Sucessão espanhola, épocas em que os povos da fronteira sofreram muito, sobretudo com fome e peste. 
Numa dessas ocasiões, terá acontecido um cerco e, quando o povo se ia render, terá aparecido um pequeno cavaleiro que liderou o povo de Miranda contra o invasor. Ganha a batalha, o "pequeno General" desapareceu por completo.
Criou-se assim a ideia de um Jesus-soldado ou Jesus-cavaleiro enviado pelos céus para ajudar os mirandeses. Vai daí fizeram uma pequena estatueta para o representar, com um farto enxoval: fatos, coletes, meias e meiotes de lã, camisas de finos bordados, até um variado conjunto de botas e tamancos de pau...




No início, o menino usava um simples chapéu de palha mas, por volta do século XIX, deram-lhe um toque capitalista, acrescentando-lhe uma cartola de gentleman
Nos meses de frio, aquecem-no com a capa mirandesa. É assim que sai em procissão no Dia de Reis, carregado por quatro crianças. Mas o seu armário é tão fino que inclui até fardas da GNR e da Polícia de Segurança Pública que um ministro português lhe ofereceu (Rui Pereira, natural do concelho).
Este Menino General é a principal atracção dos visitantes, que ignoram completamente o grandioso retábulo da catedral. Um pouco como acontece com outro menino, que fala outra língua e tem também um guarda-roupa faustoso: o Menino Jesus de Praga (aqui).