27 setembro, 2016

A Costa da Morte

Os recortes escarpados oferecem uma paisagem caprichosa, esculpida pela fúria das ondas e dos ventos. Há muito que os marinheiros temem esta Costa da Morte



A nossa viagem começou em Arteixo, junto a uma luneta gigante de 14 toneladas... o monumento ao voyeur permite-nos trepar até às alturas para observar céu e oceano, mesmo sem qualquer lente e apesar das teias de aranha.

A poucos metros dali, numa longa paliçada que liga várias praias de bandeira azul, vivemos um encontro emocionante com golfinhos. Os gritos de alegria do pequeno explorador não espantaram a família de cetáceos que continuou a alimentar-se tranquilamente, como demonstrou o sucessivo aparecimento de barbatanas.  
A região proporciona alegrias imensas aos viajantes, com as suas encantadoras comunidades piscatórias, a cozinha regional à base de marisco e as paisagens deslumbrantes, tudo embrulhado numa tranquilidade de salitre que só o litoral mais selvagem da Península Ibérica pode oferecer.


© es.aliexpress.com


Mas, de facto, o nome diz tudo. A morte espreita nesta zona costeira que se estende ao longo de 200 quilómetros, entre Malpica e Fisterra (ver mapa). Os penhascos traiçoeiros e as tempestades que fustigam estas paragens, sobretudo durante o Inverno, explicam a quantidade de naufrágios.

Por exemplo, 172 marinheiros do Serpent morreram perto de Camariñas em 1890, a escassos metros de terra firme. A sua sepultura, conhecida como cemitério dos ingleses, está assinalada com várias cruzes, como tantas outras que pontuam esta costa rochosa. 

Os anciãos contam que estas águas terríveis sepultaram cidades inteiras na Antiguidade: uma das lendas diz que Duyo foi destruída por intervenção divina, por causa dos seus pecaminosos habitantes.

Em resposta a estes perigos, ergueu-se uma série de faróis ao longo da Costa da Morte, que inspiraram uma rota pedestre muito interessante. Paramos para conhecer o mais recente farol da família galega em Punta Nariga (concelho de  Malpica de Bergantiños), onde uma escultura de Manolo Coia, entre humano e gaivota, parece querer deixar o chão, sustentada pelo vento forte que sempre se faz sentir.




A escultura "A Ferida" (esq.) recorda o trágico acidente com o petroleiro Prestige 
em novembro de 2002, que provocou o maior desastre ambiental da história de Espanha.


A Costa da Morte conduz-nos depois até Muxía, onde a Virgem terá aparecido ao apóstolo Santiago. Muitos peregrinos passam por aqui em direcção a Fisterra, "finis terrae", o fim do mundo conhecido descrito pelos romanos, onde queimam as suas roupas do caminho...

O Santuário da Virxe da Barca é um dos lugares mais bonitos da Galiza, com o mar a bramir mesmo em cima da singela igreja e as tradições pagãs ainda a pulsarem no ar. A poucos metros fica a pedra vacilante, onde em tempos se celebrou o culto da fecundidade e a que ainda se atribui poderes divinatórios. Dizem que ela abana apenas quando quer ou para prever uma catástrofe.

Será que abanou na noite de 25 de Dezembro de 2013, quando um raio atingiu o pequeno templo da Virgem da Barca, causando um incêndio?

Deixamos a costa agreste e as suas misteriosas histórias para trás, não sem antes conhecer a foz do rio Xallas que encontra o mar de uma maneira exuberante: eis o único rio europeu a morrer sob a forma de cascata. A partir daqui a geografia adoça, os penhascos substituídos por pequenas enseadas, protegidas por pinhais, e pelas águas mansas das rias.





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Rota dos Faróis aqui

20 setembro, 2016

O humor da Coruña




Um sorriso rasga-se-nos na face ao descobrirmos, por acidente, a praceta mais divertida da Corunha, a dois passos do centro histórico. A Praza del Humor (em galego), que fica muito perto do mercado de San Agustín e se chamou outrora Praça dos ovos, recebe-nos com uma série de pedestais em bronze, todos eles dotados de monumentais narizes aduncos.

Dizem que o nariz não serve literariamente para nada, a não ser atrapalhar, para ser metido onde não é chamado, para ser assoado como um trombone ou meter berlindes lá dentro. Que um autor titubeante destrói um projecto literário no momento de descrever um nariz e, por isso, o prudente Homero se escusou a tal desafio, sendo por isso que o calcanhar de Aquiles ficou na história, mas não o seu nariz.

Mas na escultura, o nariz não sofre estigmas, pode ser justamente destacado, pode mesmo ser exagerado sem pudores. Assim o entendeu o autor dos bustos da Praça do Humor, atribuindo pronunciadas pencas a três gigantes do humor galego: Julio Camba, Wenceslao Fernández Flórez e Vicente Risco.








Não que os senhores façam parte do meu conhecimento enciclopédico, mas o Ayuntamiento assim o diz e eu vou acreditar por dois motivos. Primeiro, provavelmente outros autores não humorísticos ficariam aborrecidos por serem assim caricaturados. Segundo, quem gastaria dinheiro homenageando gente aborrecida numa praça dedicada à arte do riso?

Adiante. Num piso superior, outros dois génios do humor [os autores Alfonso Castelao e Álvaro Cunqueiro] repousam resfastelados em bancos de granito, um em frente ao outro. Estarão a jogar ao sério!? O Pedro senta-se com um deles, numa amena cavaqueira, enquanto eu percorro o piso de mármore, apontando célebres personagens com as quais cresci.

Ali está a imortal Mafalda de Quino, a Pantera Rosa, Mortadelo y Filemón, partilhando democraticamente o espaço com grandes autores. Lewis Carrol cumprimenta o pequeno Charlie Brown, enquanto Jonathan Swift joga às cartas com Jardiel Poncela e o Cantiflas se exibe perante um grupo de disneyrianos.






No meio da praça, o corno do Gatipedro** continua a jorrar água, indiferente ao rebuliço que o rodeia. Parece que, há uns anos, desapareceu misteriosamente, provavelmente pelas mãos de um sarcástico brincalhão.

O humor da Corunha acompanha-nos noutros pontos da cidade. Na Torre de Hércules, somos surpreendidos por uma personagem que parece ter saltado das páginas de uma BD, igualmente detentora de um generoso nariz [começo a ver aqui um padrão]. Como sou muito perguntadora, fico a saber que está relacionada com a exposição patente no mais antigo farol do mundo ainda em funcionamento (tudo sobre a Torre de Hércules aqui). Resta saber porque carrega uma sandes monumental...

A mostra faz parte do Viñetas desde el Atlántico, um festival internacional de banda desenhada que a cidade organiza desde 1998 e que perdemos por um par de dias. O palácio municipal também entrou no espírito, plantando os irredutíveis gauleses Astérix e Obélix à sua porta.

Os portugueses estão bem precisados de uma terapia intensiva de riso, não vos parece? Talvez possam aprender com os vizinhos galegos.




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**O Gatipedro é uma personagem de Álvaro Cunqueiro. Trata-se de um gato branco com um corno na cabeça de onde jorra água. À noite, o gato malandro visita meninos adormecidos, molhando-lhes os pés para que façam xixi na cama...