15 janeiro, 2017

Mamã Muxima








Há exactamente um ano, Muxima recebia a promessa de se tornar o primeiro santuário nacional de Angola. Fomos conhecer o maior centro mariano da África subsaariana

"Mamã Muxima". "Mamã do coração", em kimbundo. Este tratamento carinhoso à Virgem encerra um universo de afectos. De facto, este é o santuário mais querido dos angolanos, que acorrem em peregrinação nos primeiros dias de Setembro, deixando a pequena vila a rebentar pelas costuras (a festa atrai mais de um milhão de pessoas, segundo os jornais).

Chegamos às margens do Kwanza no primeiro dia de Janeiro, numa manhã abençoada com chuva. A aldeia ganhava vida devagar, os angolanos iam sacudindo os restos da festa da passagem do ano sem pressas. De resto, a Muxima é muito pacata, se recordarmos do trânsito furioso que deixámos em Luanda há cerca de 130 km.

Subimos até ao forte, para apreciar a vista magnífica sobre o rio. Curiosamente, muitas oferendas à Mamã Muxima são colocadas à porta da fortaleza. Foi aqui que encontrei uma mulher de joelhos, imersa na sua fé. Lançou-me um olhar, a curiosidade motivou um segundo relance, mas logo voltou às suas preces. 






Pouco depois, chegavam os miúdos no rasto dos turistas e eu meti conversa com o  Sélvio, o Afonso e o Nelson (entre os 7 e os 10 anos). Responderam-me sempre com frases concisas, tímidos sins e nãos entrecortados com risinhos envergonhados. Despedimo-nos mas acabaríamos por reencontrar os rapazes pouco depois, junto à Igreja. A nossa visita devia ser o acontecimento mais excitante daquela manhã morna, ou talvez esperassem ganhar mais alguns biscoitos.

Os portugueses chegaram à vila de Muxima em 1581. Ao pequeno posto militar seguiu-se a construção de uma fortaleza (que serviu de prisão) e da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que terá sido fundada em 1599 por Baltazar Rebelo de Aragão. O conjunto foi apresentado à Unesco nos anos noventa, mas nunca chegou a ser classificado, o que é pena, já que poderia contribuir para a conservação deste lugar místico, único em Angola.

Uma idosa, de idade indefinida, descansa junto à sombra da Igreja. Sento-me ao pé dela, para saber que mora em N'Dalatando e que veio agradecer à Mamã Muxima ter vivido para ver um novo ano.

"Isso é na estrada para Malanje?" - pergunto, recordando uma viagem para aqueles lados (aqui).

"Não sei, menina. Tem que perguntar a essas pessoas, viemos todos de machimbombo" - sorrio, surpresa. Ela não parece minimamente incomodada por não ter qualquer noção geográfica do seu país. Será mais importante as suas dores de cabeça, a tensão e as outras maleitas da idade, das quais fala repetidamente.

"Se pedirmos algo à Mamã Muxima, mas assim com muita fé, ela nos atende" - lança-me, à laia de conselho. 


A igreja de traça portuguesa foi classificada monumento nacional em 1924.





A devoção à Virgem da Muxima é antiga e ganhou um novo ímpeto no século XIX, quando a região foi gravemente afectada pela doença do sono, que dizimou populações inteiras. Hoje, como naquela época, todas as angústias e desejos são lançados à mamã do coração. Os crentes conversam com a imagem, riem-se com ela, zangam-se e ralham, como se fosse uma velha amiga. E pedem-lhe de tudo: para curar a infertilidade, para terem sucesso nos negócios, para trazer chuva...

Em breve, a vila vai ganhar outra relevância com a construção de uma gigante basílica, com capacidade para 4.600 pessoas sentadas. Nessa altura, será elevada à categoria de santuário nacional (notícia aqui).

Em 2009, a maqueta do futuro templo, da autoria do arquitecto e artista plástico Júlio Quaresma, foi apresentada ao Papa Bento XVI, numa cerimónia no palácio presidencial.

A nova igreja deve ser construída em frente à antiga, do qual será separada por uma praça geométrica capaz de acolher 120 mil peregrinos. Mas o projecto (de cerca de 40 milhões de euros) deve estender-se a toda a vila, com uma escola, um posto de polícia, um centro de saúde, um hotel, uma zona comercial, um parque de campismo, rede eléctrica e saneamento...

Ainda que muitas das infraestruturas sejam muito necessárias, pergunto-me se a pequena vila da Muxima não perderá "coração" quando tudo estiver pronto, lá para 2020.


26 dezembro, 2016

2016 | o ano em retrospetiva




Cá estamos novamente em balanço, como em todos os finais de ano. Tenho a sensação que 2016 passou num sopro!  É momento de reflectir, de traçar novos objectivos e planear novas viagens, sem esquecer de recordar e agradecer os momentos felizes que, felizmente, são muito mais abundantes do que os tristes.

Postei menos do que gostaria, ao longo deste ano que termina. O tempo é sempre escasso e os projectos em mãos sempre muitos: O Berço do Mundo acaba por ficar com as migalhas que sobram. Apesar disso, o blog continua a dar-me muito prazer, é muito reconfortante receber os vossos comentários carinhosos, sentir a vossa presença. Alguns chegaram aqui quando o Pedro tinha apenas quatro anos, dentes de leite e bochechas boas para encher de beijos.

Mas tergiverso. Prontos para recordar este ano? Os postais das nossas aventuras, para usar a expressão do Pedrinho, estão prontos e a transbordar de cor.


Cliquem para aumentar as imagens.


Os primeiros dias do ano apanharam-nos em Angola, onde temos vindo a criar novas tradições natalícias. À saída de Luanda, em direcção à Barra do Kwanza, conhecemos um dos lugares mais fascinantes da capital, com um peso histórico esmagador, ligado à Rota da Escravatura.

Em Março, rumamos ao norte de Itália, para descobrirmos que Milão é muito mais que moda: é A Última Ceia, é um dos teatros mais belos do mundo, é a beleza arquitectónica do Duomo. Esta aventura permitiu que festejássemos os primeiros dias da Primavera a poucas horas da cidade, na fronteira com a Suíça, com o cenário cinematográfico do Lago Como.

Em Maio inauguramos uma série de posts sobre Lisboa, cidade a ponto luz bordada, como cantou magistralmente Carlos do Carmo. De resto, há muito que nos pediam dicas para explorar a capital portuguesa. O Pedro recebeu um jogo fantástico que nos ajudou nessa tarefa, fazendo o pequeno explorador exultar de alegria, decorar quadras do Bocage, ver a sua primeira múmia e ir ao Planetário, movido a pastéis de Belém (combustível delicioso).





Pouco depois, o trabalho levava-me até às faldas da Serra da Estrela, onde pude explorar os desníveis da Covilhã e fui surpreendida por um projecto maravilhoso de arte urbana chamado Woolfest. Aproveitei ainda para conhecer duas aldeias históricas próximas, na Cova da Beira, a região das cerejas: Castelo Novo e Alpedrinha.

No final de um Verão particularmente cansativo, optamos pela região galega, na vizinha Espanha. Acampamos, a pedido do Pedrinho. Não seria a minha escolha, sabem. Há uns 15 anos que não dormia numa tenda mas, afinal, foi muito divertido sobretudo a noite de chuva, quando a tenda começou a meter água...

Esta aventura fantástica começou na Corunha - onde conhecemos a mítica Torre de Hércules e nos rimos com umas personagens narigudas - para depois descer pela Costa da Morte até a geografia adoçar e repousarmos nas Rias Bajas. Antes do regresso a Portugal, fizemos um último desvio para conhecer um jardim romântico, por culpa de uma única foto em que tropecei nas minhas pesquisas: Lourizán.




Entre estas viagens houve, como sempre, espaço para conhecer tradições portuguesas, revisitar lugares que adoramos, falar sobre as nossas aventuras a meninos do 2º ciclo e desvirtualizar mais algumas amizades, como a Ana Christ, autora do maravilhoso blog Nativos do Mundo.

Fechamos este ciclo perfeito novamente em Luanda. No horizonte, espreita 2017 que, desconfio, será igualmente fantástico, se soubermos aproveitar esta energia de renovação. Vamos lá? 




O Berço do Mundo em 2016
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