Abu Simbel - Deuses caminham entre os homens

by - 10:23

Um terremoto fez ruir uma das sentinelas do templo maior.


O Egipto foi um dos destinos que me alimentou sonhos desde que me lembro como gente. Tudo nele fascina: a história milenar, a riqueza da sua cultura, da arquitetura, as paisagens, o mistério que cobre tudo como uma fina camada de areia…

Quando finalmente viajei até lá, numa doce lua-de-mel em 2006, não me decepcionou como muitas vezes acontece quando os sonhos são longos e as expectativas altas.

De entre tantos momentos mágicos – a floresta de colunas do templo de Luxor que ficou sem cores graças a um italiano louco; os cheiros das especiarias vendidas na rua; os labirintos do famoso bazar de Khan el Khalili - há um lugar que nunca esquecerei: Abu Simbel.

Confesso que a viagem de autocarro desde Assuão até àquele sítio arqueológico classificado pela Unesco como património da humanidade me venceu. Dormi durante os 300 quilómetros, em linha recta, que atravessam o deserto. O que vi, quando despertei em pleno território núbio, apanhou-me desprevenida.
Desprevenida sim. O Egipto é tão rico em património, que este se amontoa nos cantos do Museu do Cairo, os visitantes tocam nas peças, sentam-se nelas, tratam-nas por “tu”. Mas Abu Simbel inspira uma reverência muda, este é um lugar sagrado e esmagador. E não uso os adjectivos em vão.


Aos pés dos colossos sentados de Ramsés II (com 21 metros de altura), sentimo-nos ínfimos. Percebemos porque os templos foram colocados ali na fronteira com o Sudão. É como se os deuses estivessem a guardar as portas do Egipto.


O templo menor, construído em honra da bela Nefertari.




Ao lado do templo maior existe um mais pequeno e delicado (as esculturas medem “apenas” 10 metros), igualmente escavado na rocha, que o faraó construiu para a esposa favorita, Nefertari. A ela e à deusa Hathor foi consagrado o templo, um gesto de amor de um marido não muito dedicado e não muito fiel. Ao seu lado, o imponente edifício dedicado ao próprio Ramsés II e aos deuses Amon-Ré e Ré-Horakhti.

A habilidade de construção dos antigos é, neste caso particular, desafiada pela arte da engenharia moderna. Na década de sessenta, para fazer face à subida das águas provocada pela barragem de Assuão, os templos foram cortados da montanha e transportados 60 metros acima da sua posição original. 

Alheios a esta temerária operação, os colossos mantêm o olhar no horizonte, procurando intrusos que ameacem a grandeza desta terra mítica onde, um dia, os deuses caminharam entre os homens.



Visite também a galeria de fotos da Unesco:  http://whc.unesco.org/include/tool_image.cfm?src=/uploads/sites/gallery/full/site_0088_0001.jpg

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10 comentários

  1. Consegui viajar até lá com este post! Obrigada!:)
    Bjs!

    http://hiimab.blogspot.com

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    1. Obrigada minha querida. Sê muito bem-vinda!

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  2. Adorei o texto. Faz-nos viajar nas tuas palavras e quase ouvimos o vento a passar pelos grãos de areia do deserto.

    Parabéns!

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    1. Estou a redescobrir o prazer da escrita... e A Árvore dos Livros foi uma inspiração. Sou fã incondicional

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  3. Lindo, maravilhoso... Parabéns Ruthia, ficou muito lindo o blog. Estou morrendo de saudades!!! Um grande beijo a todos :):):)

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    1. Oi galerinha do Brasil e obrigada. O meu blog é muito chique, ainda agora nasceu e já se tornou internacional :) Mil beijos para todos vocês

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  4. Fazes falta ao Jornalismo, é só isso que tenho para te dizer! :-)

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    1. Não sabes como me deixas emocionada. Quem sabe me decido um dia a mudar para a grande cidade, e aí vou bater-te à porta a pedir trabalho na tua redação... Beijo

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  5. Acabei de descobrir este fantástico blog. Adoro viajar e revi-me tanto, mas tanto, nestas suas palavras que não imagina! Desde adolescente que sonhava conhecer o Egipto (ainda escrevo com p) e não me defraudou em nada. Adorei o museu do Cairo (onde confesso me fez imensa impressão o facto de toda a gente mexer nos sarcófagos, nas estátuas - quando no museu britânico toquei ao de leve num sarcófrago na ala egipcia e um polícia veio imediatamente ralhar-me. Abul Simbel é de cortar a respiração, ao chegar com o nascer do sol, depois da viagem de madrugada.Senti-me mínima junto daquela grandiosidade! E os vendedores junto dos barcos de cruzeiro, quando esperamos a passagem pela barragem, tão fantástico.As pirãmides - como foi possivel construí-las! Desculpe-me este post mas o entusiamso é enorme. Enfim costumo dizer que é um país onde se dá um pontapé na terra e se descobre um achaco arqueológico! marília

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    1. Marília,
      Não peça desculpa por um comentário bem recheado. Adoro gente faladora, que sabe saborear um bom texto em vez de "ler na diagonal", que termina cada viagem mais rico e mais sábio.

      Boa lembrança a dos vendedores tipo enxame a rodearem os cruzeiros perto da comporta. Fui apanhada desprevenida e levei com um saco de plástico na cabeça... :) Trouxe-me boas recordações, acho que ainda faço um outro post sobre o Egito.

      Agradeço, do fundo do coração, o seu comentário tão amável e entusiástico e espero "vê-la" sempre neste meu cantinho.
      Abraço

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!