Precioso, ainda que Negro

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Os edifícios revelam alma aportuguesada e as igrejas opulência barroca. As pedras da calçada falam de ambição desmedida e do sonho de liberdade dos inconfidentes. O vento, esse, transporta palavras de ódio de outras épocas…

Antes que me apedrejem pelo título, diga-se que “Precioso, ainda que Negro” foi o lema da bandeira de Ouro Preto (estado de Minas Gerais, Brasil) até 2005, data em que vários movimentos o fizeram alterar, por alegadas conotações racistas, para “Precioso Ouro Negro”.




A memória da minha visita a esta Cidade Monumento Nacional, a primeira brasileira distinguida como património da humanidade (1980), foi avivada por um projecto da Fundação Calouste Gulbenkian, chamado HPIP – Heritage of Portuguese Influence, recentemente divulgado na televisão.
Muito resumidamente, o portal interactivo resulta de um grande levantamento do património arquitetónico de influência portuguesa no mundo, quase todos resultantes daquela época áurea em que demos “novos mundos ao mundo” (desculpem a fraqueza que me faz lançar mão da retórica dos descobrimentos).


Dos tempos da corrida ao ouro, apenas resta
o nome da cidade - Ouro Preto - e o património edificado.



No portal encontram-se edificações magníficas e tão díspares como o Palácio do Governador em Mindelo, o Convento do Precioso Sangue em Macau ou o edifício do Liceu Nacional de S. Tomé e Príncipe. Para muita pena minha, da extensa lista de sítios ali divulgada, praticamente só conheço, ao vivo, os edifícios de Ouro Preto e Mariana.





Falemos então de Ouro Preto, uma das 7 Maravilhas do Brasil, pequena jóia perdida num profundo vale das montanhas mineiras, com tantos traços familiares que me pareceu estar numa qualquer aldeia portuguesa.



Vila Rica em horrores

Nas águas velozes do rio Tripuí se encontrou a primeira pedra escura que despoletou toda a história. O ouro negro, "eclipse de um sol do mais puro quilate", encoberto por uma camada de óxido de ferro, deu início à febre. Milhares de aventureiros quiseram tentar a sua sorte.
Vila Rica, como então se chamava, cresceu e com ela histórias de crueldade. Os escravos praticamente viviam nas minas, respiravam o óleo de baleia queimado das tochas para satisfazer uma ambição alheia sem fim: ainda se pode visitar uma espécie de senzala (parecida com a corte dos porcos que se usa por baixo de algumas casas minhotas) na Casa dos Contos.

O Museu da Inconfidência possui um traçado
muito familiar aos portugueses.

 

A coroa quis o seu quinhão e quando o ouro começou a escassear continuou a exigir, a extorquir… a opressão culminou na Inconfidência Mineira, movimento duramente rechaçado por Portugal. Um dos seus cabecilhas, conhecido como Tiradentes, foi enforcado. Durante muito tempo, chamar a alguém inconfidente era considerado um insulto, hoje é sinónimo de liberdade e o Dia de Tiradentes é feriado nacional – enfim, são as voltas da história!



S. Jorge e Aleijadinho – a história tem cada anedota


De nada adianta o ouro ao mundo se não for possível ostentá-lo... Novos-ricos e mecenas, artistas e ordens religiosas também fazem parte de Ouro Preto que, por isso mesmo, possui o maior conjunto barroco do mundo.
A igreja de São Francisco de Assis é um dos exemplares mais orgulhosos da cidade – ali se pode apreciar o belo teto pintado pelo mestre Ataíde e as esculturas do famoso Aleijadinho, que também é responsável pelo traçado geral do prédio.


A Igreja S. Francisco de Assis é considerada
a obra-prima do Aleijadinho.


De seu nome António Francisco Lisboa, o Aleijadinho era filho de um respeitado arquiteto português e da sua escrava. Apesar da alcunha, causada pelo aspecto pouco agradável (fala-se de deformações causadas por doença), o Aleijadinho foi um escultor, arquitecto e entalhador de renome, considerado expoente máximo da arte colonial do Brasil.
Não quero adiantar muito sobre a sua obra, aliás este post já “tresanda” a mofo por causa dos apontamentos históricos. Mas não resisto a deixar uma anedota que, tendo muito ou pouco de verdade, é deliciosa.

Minas Gerais é rica em cachoeiras. Esta fica na Serra do Cipó.



Dizem que o chefe de gabinete do governador deitou olhares insultuosos ao artista, quando este foi chamado ao palácio por causa de uma encomenda – uma nova imagem de S. Jorge. Na data da entrega, a grande estátua articulada reproduzia, detalhada e caricaturalmente, o rosto desse senhor, António Romão.
Daí resultaram uns versos: “Aquele que ali vai, com cara de santarrão / não é santo coisa nenhuma, é António Romão!


Com a Verinha, na Serra do Cipó. Que delícia...

Mas a história fica ainda mais bizarra. Chegado o dia do santo sair à rua, como atração principal de uma procissão, o S. Jorge foi montado num cavalo, de espada em riste. Por algum motivo, a cavalgadura assustou-se e a imagem foi lançada para a frente. A espada do S. Jorge trespassou o escravo que, vestido de cetim, conduzia o bicho e matou-o ali mesmo. Susto, horror (pareço o Albarran), quem fora o assassino? O S. Jorge pois claro. A imagem foi assim conduzida à prisão.

Portanto, quem puder viajar até Ouro Preto, cidade de história e de arte, terra de inconfidentes e universitários (há pelo menos 67 repúblicas na cidade), não se esqueça de visitar o S. Jorge que mantêm atrás das grades, para fins turísticos, na Casa da Câmara e Cadeia.


Site oficial de Ouro Preto – www.ouropreto.org.br
Portal HPIP - www.hpip.org

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