In the end of the world

by - 12:45

Há muitos, muitos séculos, este era o fim do mundo conhecido. Para lá destas escarpas, apenas perigos e tormentas… Chegamos a Sagres, onde mar e oceano, história e mito se fundem em perfeita harmonia




O vento atinge-nos de todos os lados, impregnando a roupa de maresia. Mesmo num típico dia de verão como hoje, de céu limpo e inteiro, é de esperar esta ventania em Sagres, circunstância que atrai muitos surfistas às praias locais.

Apesar disso, a vila mantém a sua simplicidade - ao contrário do resto da costa algarvia - graças a leis de protecção especial que impedem a construção e a oferta turística exagerada. Porquê? Porque está em território do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, onde se aplicam directivas europeias para protecção da fauna e a flora.

Sagres foi fundada pelo Infante D. Henrique, o pai e mentor da aventura marítima portuguesa no século XV. Diz a lenda que o príncipe criou aqui a maior escola náutica do mundo; fazendo com que Portugal parisse tantos navegadores excepcionais.


Mas o mito é ainda mais profundo e transporta-nos até à antiguidade clássica: segundo sábios como Plínio e Estrabão, os peregrinos viriam a este “promontorium sacrum” para prestar culto a Saturno e Hércules, divindades com forte conotação marítima.

Várias Graces tomaram de assalto o Forte de Sagres.




Entramos na fortaleza de Sagres e a fábula envolve-nos, misturada com a brisa deste mar que se impõe, gigante, de cada quadrante da paisagem. O azul forte das águas e o céu cerúleo contrastam com a brancura caiada dos edifícios.

O forte foi igualmente obra do infante, contra o reino de terror instalado pelos piratas neste cruzamento entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico (até o corsário Francis Drake por aqui pirateou). A ponta escarpada revelou-se um ponto de defesa estratégico e, finalmente, as embarcações gozaram de uma relativa segurança enquanto esperavam por ventos favoráveis à navegação.

Do alto de um torreão, observamos melhor a rosa-dos-ventos em pedra, descoberta e desenterrada já no século XX. Mais adiante, a réplica do padrão dos descobrimentos e o farol não deixam esquecer que aqui o mar é rei e senhor. Como se fosse possível. A imensidão das ondas rodeia-nos!

Umas esculturas voluptuosas (do artista Karl Heinz Stock) dão cor ao espaço austero. Chamam-se “Graces” e são todas diferentes, coloridas, sensuais e femininas. Sou um pouco purista em relação aos monumentos históricos mas, de alguma forma, o forte de Sagres pareceu-me o cenário perfeito para aquele conjunto de esculturas que evocam o ancestral culto da fertilidade.

Tomamos o caminho amarelo, qual Dorothy no seu caminho de tijolos, fazendo o longo percurso devagar, enchendo os pulmões com ar carregado de sal. O vento e o sal acalmam os anseios dos últimos meses. Estava a precisar de uns dias de pausa, longe de tudo, completamente offline.

Alguns canhões permanecem por ali adormecidos, já nada ameaçadores. O nosso olhar não se digna a dar-lhes uma segunda oportunidade porque o apelo do mar é muito forte, atrai-nos uma e outra vez. Dali, conseguimos avistar o farol de S. Vicente, a ponta mais sudoeste de todo o continente europeu.



Vestígios de uma rosa dos ventos (esq.) e o farol (dta.)



Não é defeito, é feitio
São quase horas de comer mas, antes de deixarmos esta magnífica edificação de arquitectura militar (monumento nacional desde 1910), damos um saltinho à singela igreja, também do século XV, e abraçamos a paisagem uma última vez. 

Despedimo-nos da pequena e genuína Sagres para rumar a Vila do Bispo, a cerca de 8 km, onde nos esperam umas lulas para o almoço. Encontramos o restaurante Correia (foi-nos muito recomendado) com facilidade na Rua 1º de Maio. Apesar da fama, a primeira impressão foi decepcionante. A porta fechada até às 13h00!!?? 

A D. Elisa (Dilita para os habitués) lá abre o restaurante e prepara uma mesa, com todos os vagares. A senhora tem um feitio muito especial, não gosta que os turistas escolham mesa e se sentem sozinhos. Afinal estão em casa dela!




O menu não tem muitas opções, as especialidades são o arroz de peixe ou de polvo, as lulas à Correia e os percebes - uma espécie de molusco, que é servido como entrada. Ali se pode ler, a título de aviso, que os pedidos podem demorar até 50 minutos. Têm pressa? Pois podem ir a outro lado! – lança a D. Elisa, afoita. 

Enquanto esperamos pelo almoço, ao sabor de uns camarões, observo a casa com mais atenção. A decoração é do mais kitsch, azulejos diferentes em cada parede, quadras populares um pouco por todo o lado, cartazes de espectáculos na montra.

As lulas lá chegam numa panela, como se estivéssemos em casa, que a D. Elisa pousa directamente sobre a toalha. Tenras q.b. e servidas com batata cozida com casca (felizmente já descascadas), as lulas realmente são saborosas. No final da refeição, a pequena senhora volta, levanta uns pratos, atira um “O que mais faz falta?” mas afasta-se antes de conseguirmos responder.


Regressa algum tempo depois, diz que há arroz doce, torta de amêndoa e tarde de alfarroba para sobremesa. Como não escolhemos prontamente, foge-nos novamente e regressa com uma fatia de torta de amêndoa, que acompanhamos com o café.

Fiquei um tanto confundida com o restaurante e com a anfitriã. Mas acho que gostei… pelo menos foi diferente! E foi de barriga cheia que regressamos ao norte do país, depois da pausa pelos Algarves.



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21 comentários

  1. Nossa Ruthia, a viagem te fez bem, escreves com ar poético e continuas a nos dar aula de história, o que muito me deixa feliz!!!
    Bjs desejando uma semana iluminada, com muito amor, saúde, sucessos e realizações, sempre na maior paz!
    tititi da dri

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  2. Que maravilhosa viagem por esses lugares fantásticos e que nos remetes à Paz!! LINDO tudo! Ótima semana,beijos,chica

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  3. Meninas, o ar do mar e a paisagem como que lavaram a minha alma. Ficamos pequeninos perante a força da natureza. E estava mesmo a precisar de "desligar" durante uns dias. Quem não precisa?
    Muitos beijinhos para vocês

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  4. Conhecendo lugares que dificilmente irei... que fotos lindas, que história interessante...
    A gente mergulha em cada palavra sua e se sente flutuando sobre os lugares.... muito lindo!

    Beijos e ótima semana!

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    1. Obrigada Clara, és sempre muito gentil. É assim mesmo, as palavras têm o condão de nos transportar a lugares distantes...
      Beijinho

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  5. Não que eu tenha tendências suicidas, mas juro que só de olhar, deu vontade de me jogar (referente a primeira foto). Juro que depois que vi a foto da rosa dos ventos não consegui tirá-la da cabeça. Todas as fotos seguintes são lindas, de um azul vivo, porém eu fiquei com essa rosa dos ventos em mente. Acho que tenho um quê de arqueólogo... Enfim, gostei muito das imagens, e juro que imaginei a D. Elisa, do jeito que descreveste! Enfim, tenha uma ótima semana!

    http://circadianoinverso.blogspot.com.br/

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    1. Luã! Por acaso não falei nisso no texto, mas houve um momento em que o vento batia de frente e tanto eu como o meu filho abrimos os braços, como se fôssemos gaivotas esperando que o vento nos sustentasse as asas :)
      Fico feliz que gostaste, o lugar é realmente maravilhoso. Acho até que as fotografias não lhe fazem justiça!
      Abraço amigo

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  6. Que coisa boa ler textos seus!Nada mais a dizer!Bjuss e ótima semana.

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    1. Angela, vc é muito generosa! Um beijinho e boa semana

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  7. Também gostei da descrição da D. Elisa... Faz lembrar a atmosfera da Adega dos Caquinhos, Guimarães, mas sem os palavrões que as anfitriãs pronunciam em cada sentença.. :) Muito bom...

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    1. A adega dos caquinhos é onde? Como é que eu nunca fui a esse restaurante?? O nome diz-me qq coisa...

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    2. Mesmo por trás de minha casa. Paragem obrigatória para quem vem a Guimarães e fale português ;)

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  8. Hummmmm, torta de amêndoa... Já me estás a dar ideias, acabo de apontar "torta de amêndoa" no caderno aqui ao lado!
    Beijinhos,
    Madalena

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    1. Para depois me babar em cima do teclado, quando for espreitar o teu blog :)
      Beijinho querida

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  9. Que fim de mundo mais interessante! Viajei gostoso agora!

    Um abraço
    Marineide

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  10. A história é muito interessante e esse lugar? é lindo né?
    beijinhos
    já te seguindo :)

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    1. Tamires, seja bem vinda ao Berço. A sua visita e comentário me deixaram muito feliz. Vou espreitar o seu cantinho também.
      Beijinho

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  11. Minha querida amiga Ruthia, também por aí passei e vivi vários períodos de férias. Conheço essa zona como a palma das minhas mãos, o restaurante sempre gostei de lá ir (aqueles perceves dão cabo de mim)!
    Para uma próxima aventura aconselho-te a continuares pela Bordeira e assistires a uma bela mas lenta corrida de caracóis, continuares pela Carrapateira e dares um bom mergulho nas águas frias da Praia do amado! As pessoas são muito afáveis (ainda sou do tempo de ir ao café que era o único local com telefone), além dos habitantes locais, a maior parte das pessoas que por lá passam são turistas oriundos da Alemanha, é vê-los de cerveja na mão ainda em horas madrugadoras.
    Um beijo e cá espero mais histórias,

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    1. Obrigada pelas dicas, minha querida. Estão de partida para os Méxicos? Boa viagem, depois quero fotos!!
      Muitos beijinhos para ti e para a tua família linda.

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  12. Oi, querida....

    Passando aqui de novo só pra te desejar um ótimo fim de semana!
    Beijos

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!