O rufar do tambor

by - 08:33


A noite de 29 de novembro é a mais longa do ano na cidade-berço. O ritmo dos tambores dura até de madrugada, numa tradição que se perpetua há vários séculos***

© Ricardo Ribeiro


Milhares de pessoas estão na rua, apesar do frio. Algumas delas vieram da outra ponta do país, para não perder esta noite intrigante. Os velhos nicolinos destacam-se entre a multidão, pelo trajar, pela segurança dos gestos, pelo barrete vermelho e verde que têm na cabeça…. Cabe-lhes impor o ritmo de todos os tambores que tocarão esta noite.

E este é um ritmo forte, com bombos a ecoarem com estrondo, rasgando a escuridão. São necessárias várias pessoas para carregar estes tambores maiores, algumas delas têm as mãos ligadas, porque tocarão até se formarem bolhas de sangue

Outros, velhos e novos, empunham tambores menores (as caixas), cujos floreados enriquecem esta música que nos entra na alma sem convite. No centro do cortejo, uma junta de bois enfeitados, animais imponentes que nada temem, carregam um pinheiro. A árvore será enterrada do outro lado da cidade.

Mas a noite começou muito antes, com as ceias nicolinas em (quase) todos os restaurantes da cidade, com rojões, grelos, papas de sarrabulho e vinho verde.

O Pinheiro inicia as Nicolinas, as festas dos estudantes do antigo Liceu de Guimarães, em honra de S. Nicolau de Mira. A primeira referência a estas festas remonta ao século XVII, após a construção de uma capela e o aparecimento de estatutos da Irmandade de S. Nicolau. Como em muitas outras festas, sagrado e profano misturam-se de forma inequívoca.





A chuva intensa não impediu a multidão de sair à rua.
À direita, o momento em que o pinheiro é erguido.

Alguns dizem que o cortejo do pinheiro está relacionado com a tradição minhota de anunciar festejos erguendo um mastro. Outros apontam-lhe uma conotação fálica e, de facto, a comissão de festas permanece um reduto masculino.

Certo é que poucos jovens de Guimarães ficam indiferentes a esta noite mágica, em que o rufar dos tambores afugenta males invisíveis, seguindo o toque dos velhos nicolinos e dos outros rapazes que aprenderam a tocar nos últimos meses.

Enterrado o pinheiro, as festas continuam até 7 de Dezembro, com o Pregão de S. Nicolau, versos satíricos lançados ao vento, ao jeito dos antigos pregões que traziam notícias em tempos medievais; com as Maçãzinhas oferecidas às raparigas, com o Baile Nicolino e a Roubalheira.

Voltaremos a falar destas tradições estudantis, que o povo comum tomou como suas, e que inspirou um documentário do realizador João Botelho (O bravo som dos tambores), integrado na programação de Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura.



Durante a manhã, as crianças fazem o seu cortejo, trajados a rigor. 
Mas a noite é dos estudantes e dos velhos nicolinos.
*** As fotos usadas foram generosamente cedidas pelo Ricardo Ribeiro, que já colaborou antes com O Berço do Mundo. Conheçam o seu trabalho em: http://www.facebook.com/ricardo.ribeiro.796/photos_albums ou http://ricardojdribeiro.wix.com/ricardo-ribeiro-photos#! (com música do próprio)



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15 comentários

  1. Que delícia esse resgate e compartilhamento.Belas tradições! Lindas fotos que teu amigo cedeu! beijos,lindo DEZEMBRO!! chica

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  2. RUTHIA QUERIA, NOVAMENTE NOS PASSANDO UMA AULA DE CULTURA!! COMO SEMPRE, TE AGRADEÇO IMPLEMENTARES MEU CONTEÚDO DE SABEDORIA!!
    OBRIGADA PELA VISITA E APROVEITO PARA TE DESEJAR UM FINAL DE SEMANA ILUMINADO, COM MUITO AMOR, SAÚDE E PAZ!!
    E OS PREPARATIVOS PARA O NATAL, COMO ESTÃO POR AI? AQUI JÁ COMECEI A COMPRAR OS PRESENTES E A CASA JÁ ESTÁ DECORADA! BJS
    TITITI DA DRI

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    1. Este ano está a custar entrar em modo Natal, ainda não decorei nada em casa. Apenas comprei o presente do meu filho, porque daqui a pouco ninguém se consegue mexer em loja de brinquedos... e eu detesto confusão.
      A minha vida anda muito corrida agora, nem sempre consigo acompanhar os posts dos amigos, aqui o blog também anda mais negligenciado mas é assim a vida :(

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  3. Ruthia, gostei de descobrir esta tradição através da tua publicação.
    Regressei a Portugal há pouco mais de dois anos, e cada vez que penso que começo a conhecer o país, descubro que ainda não sei nada das suas tradições e da cultura desta bela terra.
    Adoro descobri-lo... cada vez mais!
    Beijinho.

    PS: Deixei algo no meu blogue para ti, se desejares participar.

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    1. É um povo velho e cheio de surpresas :)
      Vou lá espreitar o que é, querida.
      Beijinho

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  4. É o que eu sempre digo, passar por aqui é certeza de ficar um pouco mais culta a cada dia. Você sempre nos apresenta tradições e culturais locais que eu muitas vezes desconhecia por completo o assunto.
    Adorei os tambores, deve ser muito show!!
    Tenha uma ótima semana ^^
    Beijos

    lolaporlola.blogspot.com

    Instagram: stephanieparizi

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    1. Eu é que sou sortuda e tenho umas amigas super generosas (virtuais e não só). E essa festa é mesmo um "show" como a Té diz com esse sotaque lindo.
      Viu o vídeo?
      Beijinho e uma doce semana
      Ruthia

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  5. Ah valentes!!!
    Estou em falts para contigo, muita falta, mas não estou esquecida do desafio ;)
    Beijinhos, boa semana!
    Madalena

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  6. Oi, Ruthia....

    Os versos que vc viu no meu blog são de Victor Hugo, Desejos.
    Mais tarde eu volto pra ler seu post, que com certeza, está primoroso.
    Beijos

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    1. Ah, tinham de ser de um homem extraordinário :) Belíssimas palavras

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  7. Ruthia,que beleza de festa !É uma festa de advento na verdade!Muito interessante e eu adorei conhecer!bjs e boa semana!

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  8. Obrigada, Ruthia querida, por ter me indicado essa postagem. Há muita semelhança, com a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha-Ceará-Brasil. A "tal" conotação fálica existe sim. Tanto que há a "Noite das Solteironas". Quando os homens chegam o tronco, na praça da matriz, as moças solteiras se sentam nele e tentam tirar uma "lasquinha" pedindo a Santo Antônio que as tirem do "caritó"...Há muitos vídeos, no youtube neste sentido. É o sagrado e o profano que realmente se misturam.
    Tenha uma linda semana.
    Beijos,
    da Lúcia

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  9. Essa tradição fez parte da minha vida estudantil e de facto era algo muito especial. As nossas mãos ficavam realmente em muito mau estado, mas nem notávamos! Parece que aconteceu há séculos... nostalgia.
    Um abraço, Ruthia.

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    1. Uau, as coisas que descubro com o blog. O Pinheiro é realmente um acontecimento difícil de pôr em palavras, mas que se entranha no peito de todos os que participaram um dia.
      Abraço

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!