Alice em Ossónoba

by - 13:23

Uma sensação de irrealidade invade-me enquanto escrevo este post. Estou no sul há quase um mês, o Presidente da República anda muito estranho, não conheço o Governo, e os doces algarvios são mais fortes do que eu... 


© Município de Faro


Vamos lá trocar tudo por miúdos. O meu marido está no Algarve há vários meses por motivos profissionais e, aproveitando o facto de o meu trabalho (formal) acompanhar o ano lectivo, mudei-me para o sul até Setembro.

É a maior temporada de semi-férias de que me lembro desde a infância, embora continue com trabalho como freelancer.

Deixei para trás nove meses de um Inverno estupidamente frio, estou longe dos meus livros, o relógio aqui funciona mais devagar, a maresia abre-me o apetite e os doces algarvios são demasiado tentadores (a minha cintura comprova-o)… há ainda os discursos do Presidente sobre uma “salvação nacional” impossível, ministros que se despedem e depois são promovidos, manifestações com milhões de pessoas, nas ruas do Brasil, e um bebé real que tem finalmente nome.

Sinto-me como a Alice num país estranho, pouco real, onde tudo pode acontecer. Posto isto, estou a descobrir este Algarve das casinhas caiadas de branco, dos areais sem fim, mas também da cataplana de amêijoas, dos castelos e dos museus.

Hoje levo-vos até Faro, capital desta região aquecida pelos ventos africanos que, acredito, nos influenciam de formas estranhas.

À primeira vista, a cidade pareceu-me confusa. Muito trânsito, estradas em mau estado, o acesso ao centro histórico feito por labirínticas ruelas de sentido único. Mas lá chegamos ao posto de turismo para receber um mapa e algumas informações básicas, que começaram em espanhol… talvez o tom de pele que ganhei ao longo deste mês – perto do chocolate - leve os outros a acreditar que não sou portuguesa.



A poucos passos do centro histórico, existe um parque de estacionamento gigante e gratuito, no Largo de S. Francisco. Um ponto a favor de Ossónoba (nome romano da cidade).

Começamos por explorar a Vila Adentro, percorrendo as muralhas que envolviam a cidade árabe e medieval. Entramos pelo Arco do Repouso, passamos por um possante D. Afonso III que concedeu foral aos mouros em 1269, para nos determos na Sé.

A dita não é imponente como tantas outras que enfeitam Portugal e a Europa, mas é bela na sua simplicidade branca. Infelizmente está fechada, mas é possível subir à torre. À porta perguntam-me de onde somos, se estamos sozinhos... não entendo muito bem aquele interrogatório até que o porteiro nos deixa subir sem pagar bilhete, o que agradeço com um sorriso.






Lamento que a escadaria tenha algum lixo, ainda pondero se a cidade estará a ressacar do encontro anual de motards, que aconteceu no fim-de-semana, mas não é suficiente para explicar porque um dos símbolos do burgo se apresenta assim…

Acabo por desviar os meus pensamentos perante a paisagem, que é realmente bonita: avista-se todo o mundo intramuros (Câmara Municipal, paço episcopal…), a ria Formosa e, um pouco adiante, o aeroporto que vomita turistas a cada 10 minutos.

Saímos pelo Arco da Porta Nova e acompanhamos a muralha ao longo do rio, de onde partem os ferries rumo às ilhas de Faro, do Farol e da Culatra e onde passa o comboio, a escassos metros da água.

O barulho dos automóveis encontra-nos novamente, como uma bofetada, enquanto percorremos o Jardim Manuel Bívar ocupado pelos stands da Feira do Livro, que só funciona à noite (solto uma palavra feia entredentes, para o meu filho não ouvir)!!!






Sentamo-nos num banco, à sombra, o Pedrinho alimenta as pombas com um pedaço de pão duro, que pediu a alguém do banco vizinho. O Jardim Manuel Bívar (séc. XV) foi antes chamado Praça da Rainha, e a autarquia descreve-o como “refrescante sala de visitas da cidade com um elegante coreto dos finais do séc. XIX”.

Em frente fica a Doca Recreio, onde os barquinhos baloiçam docemente ao sabor da tímida ondulação da Ria.

Depois deste hiato, o suficiente para absorver a dinâmica da cidade e fotografar o belíssimo edifício mourisco onde está instalado o Banco de Portugal, seguimos até ao Museu Regional, de que vos falarei num próximo episódio.





As ruas Dr. F. Gomes e Santo António, que conduzem ao Museu, são pedonais, pejadas de lojas e esplanadas. Percebe-se que este é o circuito turístico porque saindo para outras artérias transversais, menos movimentadas, há novamente lixo, edifícios vandalizados, engolidos pela tinta dos grafitis e com vidros partidos.

Em algumas destas ruelas estreitas fiquei apreensiva, por causa dos homens ociosos que deambulam por ali… numa destas ruas pequenas e sinuosas dei mesmo meia volta, quando um arrumador decidiu caminhar atrás de nós (eu e o meu pequeno explorador, porque o marido está a trabalhar). Eram umas inocentes 10h da manhã.


Até a muralha e as ruínas do castelo estão repletas de grafitis. Na coluna da direita, a Ermida de N. Senhora do Pé da Cruz, com muita sujidade e dejectos de pássaros.



Isto tudo para chegar ao Teatro Lethes que queria muito conhecer, por causa duma fotografia que vi na internet. O edifício começou por ser um Colégio da Ordem de Jesus mas, depois da expulsão da Ordem, a Coroa tomou conta dele. Alguns anos e uma revolução liberal depois, acabou por ser vendido em hasta pública ao médico italiano Lázaro Doglioni, que o transformou em Teatro e o abriu ao público em 1855.


Na fachada, muito singela honrando o seu passado jesuíta, lê-se Monet Oblectando, que significa “instruir, divertindo”. Nova desilusão: o Teatro Lethes está fechado!

Contornei o edifício e descobri a Cruz Vermelha, onde me informaram que o teatro lhes pertence mas o alugaram à Companhia de Teatro do Algarve (ACTA). Toquei à campainha da tal companhia, mas ninguém atendeu… Este não é, definitivamente, um dia de sorte.



© Teatro Lethes/facebook

Consolei-me pouco depois na Despensa Algarvia (Rua Conselheiro Bívar), que fornece produtos típicos, dos licores ao mel, das conservas aos vinhos, sem esquecer, claro, os doces regionais à base de amêndoa, figos, alfarroba e ovos. Lá mascarei o desapontamento com um D. Rodrigo, uma castanha de amêndoa e um morgadinho! Pronto!

Para regressarmos ao carro, passamos pelo Arco da Vila, a mais bela das portas medievais, com uma lenda curiosa. Diz-se que existia ali a imagem de uma Virgem, que os árabes deitaram ao mar. Desde então, tanto a terra como o mar deixaram de produzir e, só quando os árabes voltaram a colocar a imagem no devido lugar, a terra voltou a dar fruto e o mar peixe em abundância.


Algumas delícias da Despensa Algarvia. Não recomendada a cardíacos e diabéticos...

Foi com a boca doce e a imaginação solta que deixei Ossónoba, perdi-me nas ruas estreitas (fui obrigada a pedir indicações duas vezes) até que deixei a cidade para trás.

Alguns quilómetros depois, o trânsito acalma e o casario torna-se mais espaçado, emoldurado por colinas suaves em anfiteatro, onde nascem árvores de fruto: laranjeiras, amendoeiras, figueiras e medronheiros.

Ossónoba tem outros mistérios para desvendar. Por lá continuaremos, apesar da Alice permanecer com esta sensação de irrealidade. Ainda me ponho a cantar “Humpty Dumpty sat on a wall / Humpty Dumpty had a great fall / All the king's horses and all the king's men / Couldn't put Humpty together again...




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23 comentários

  1. Surpresa do dia. Começo eu a escrever-te uma carta e recebo um sonoro bip no mail a dizer que entrou um texto novo teu. Coincidências?

    Vejo que o Algarve te conquista aos poucos. Já agora como uns frutinhos doces por mim. Sabes que são dos meus preferidos ;)

    Um beijo enorme!

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  2. OI RUTHIA!
    MUITO BOM TE RECEBER SEMPRE, AINDA MAIS QUE, PENSANDO BEM, DESDE QUE TE CONHEÇO SÓ VENHO AQUI PARA VER COISAS LINDAS, SERÁ QUE TENHO UMA AMIGA PRIVILEGIADA? RSRSRS.
    BRINCADEIRINHA AMIGA, FOI MUITO BOM, LER TEU POST E CONHECER UM POUCO AS MARAVILHAS DESTE PAÍS MARAVILHOSO, IRMÃO, QUE É PORTUGAL.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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    1. Não Lani, não sou privilegiada, só aproveito todas as oportunidades para descobrir este mundo maravilhoso que temos.
      Por exemplo, morei no Brasil em 2011, por isso tenho tantos posts do Brasil, não porque fui de férias mas porque aproveitei muito essa circunstância para conhecer um pouco do seu lindo país!
      Um abraço

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  3. Ruthia,
    delícia de texto super bem escrito! E a sensação de irrealidade o percorre e se transporta ao leitor que fica (eu fico) doido para conhecer essas paragens! Não me perdoo por ter voltado de Portugal sem ter conhecido o sul :/
    Saudade desses doces maravilhosos que só os portugueses sabem fazer!
    Abraço!

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    1. Fico feliz por a ver novamente por aqui, Jussara. Os doces são realmente uma perdição. E um dia quem sabe, consegue voltar para redescobrir Portugal. Eu posso fazer uma visita guiada :)
      Muitos beijinhos

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  4. Uma postagem que eu só, e devo, chamar de muito rica. Você vai nos levando como se estivéssemos ao seu lado. Conheço um pouco o algarve, quando ali estive em 1986, com o meu marido. Como acontece aqui no Brasil, muito do patrimônio arquitetônico é mal preservado. Vai muito da administração, da vontade política dos governantes. E do povo também que deveria zelar pelo que lhes pertence. Que doces deliciosos, devem ser os da vitrine...hummmmmmm!!!
    Obrigada, Ruthia, pela excelente matéria.
    Beijos,
    da Lúcia

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    1. Lúcia, o Algarve tem uma invasão de turistas no Verão que nem sempre são civilizados. Mas o Município tem que estar preparado para mostrar o seu melhor precisamente quando tem mais visitantes.
      Eu fico deprimida quando vejo o património tratado desta forma!
      Beijinho Lúcia

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  5. Ruthia querida, que lugar lindo e cheio de história!!!! e os doces... ai que tentação... me deixaram com água na boca e já engordei só de imaginar o sabor delicioso dos mesmos""" obrigada, mais uma vez, pela magnífica aula de história, regrada a poesia, como só tu sabes fazer
    bjs desejando ótimo final de semana
    tititi da dri

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  6. Os doces parecem mesmo tentadores!Que belo lugar nos mostrou,adorei a sua história e imagens tb!bjs e bom fim de semana,

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  7. Ruthia,

    Portugal é lindo mesmo!
    Fiquei encantada com aquele muro!
    As arvores floridas parecem pinturas!
    Não conheço esta terra esplendida, mas viajo atraves dos blogs amigos.

    Beijos

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  8. Adorei o teu post! Achei muita graça ao quereres dizer palavras menos adquadas em frente do teu filho e ao te teres refugiado nos doces algarvios. Que bela escolha! Ainda tens um universo gastronómico para experimentares: cataplana à algarvia, petingas, arroz de búzios do mar...uiii isso não acaba! Tens de beber um cálice ou dois de aguardente de figo para saberes o que é o Algarve, até cais para o lado...lol..E quanto a veres os edifícios estragados isso é também culpa das pessoas que toleram muitos abusos. E nunca te esqueças...jamais bebas aguardente de medronho em dias de muito sol sem estares acompanhada! Essa é outra das bebidas boas mas muito fortes do Algarve! Boas férias aproveita muito!

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    1. Nem digas nada, tem sido excessos gastronómicos uns a seguir aos outros... Já ouvi falar da aguardente de medronho, se se comer o fruto num dia quente parece que também faz efeito... eu é que ando arredada das experiências alcoólicas há muitos anos, hehe
      Beijoca

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  9. Mais um post cultural que eu adorei pois conheci um lugar novo!!! Mas meu lado gordinho fixou-se nas comidas hahaha, sempre :)
    Que bom que está de volta, saudades de vc por lá querida!!!
    Beijos

    bloglola.com.br

    Instagram: stephanieparizi

    Ps: meninas, venham participar do sorteio MAC e L´ORÉAL que está no ar, é super fácil :)

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  10. Que aventura, menina!!! Por cá, e pior ainda no vizinho Porto, também há belas fachadas cobertas de grafittis e passam-se anos assim. Que bom deve ser governar... A confundirem-te com uma española? Es que es guapísima ;)
    Besitos!

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    1. São os teus olhos, M querida. Nada contra os grafittis, alguns até são giros, mas não em monumentos. E a maioria nem sequer tenta fazer arte, mas simplesmente vandalizar, escreve palavrões, etc...

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  11. Começando do fim...
    Menina, como vc se atreve a nos mostrar esses doces tentadores? Ahhhh, eu quero!!!
    Que lugar encantador!
    Eu tenho um sonho de poder entrar nesses "templos" antigos, misteriosos... medonhos até, não sei.
    E o teatro. Amei! Por fora uma arquitetura simples (eu achei), mas por dentro (foto do face), maravilhosamente lindo!
    Pra correr do frio algum sacrifício teria que fazer... mas logo tudo isso passa e vc retorna aos seus livros e à sua casa.

    Um lindo domingo!

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    1. Clara, os doces tradicionais portugueses são muito à base de ovo, pelo que não é seguro enviar pelo correio, senão teria todo o prazer em lhe enviar uma caixinha deles.
      Obrigada pela sua visita sempre simpática. E o frio... não tenho saudades nenhumas dele!

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  12. No meu blog OLHAI OS LÍRIOS DO MACUÁ
    publiquei hoje, dia 28/07/13, um poema da minha querida amiga brasileira Maria Lúcia.
    Gostaria de poder contar com a tua presença, homenageando-a.
    Desde já o meu “Bem hajas!”

    Mariazita

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  13. oi amada, passando para desejar uma semana com muita saúde, amor e paz!!
    bjs
    tititi da dri

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  14. Agradeço,pelas suas palavras na minha poesia!

    vejo,que tem uma vida de viagem!!

    onde descobre e redescobre sonhos!

    gostei muito da foto,do teatro,e o doces também me ficaram a piscar nos olhos,

    beijinhos



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  15. Gostei. Só lhe quero dizer que a foto que tem do interior do Teatro Lethes não é do Teatro Lethes. Obrigado.

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    Respostas
    1. Olá Marco, bem vindo à minha humilde "casa". Em relação à foto, sabe dizer-me de onde é então? Porque a tirei da net como sendo do interior do teatro. Vou confirmar. Grata pelo aviso.
      Um abraço

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    2. Deve ter razão porque já não encontro a imagem lá no facebook do Teatro Lethes. Já substitui a imagem. Agradeço o seu aviso :) Bom fim-de-semana

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