Namíbia no meu destino

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© stories.namibiatourism.com.na (Foto de Hougaard Malan)

Quem já perdeu um pouco do seu tempo a ler a minha nota biográfica aqui n’O Berço (Quem escreve?) sabe que nasci na Namíbia. Cresci a ouvir a minha mãe contar o meu nascimento épico, em como as picadas africanas tinham provocado um trabalho de parto prematuro e como esta novela tivera um desfecho feliz, na África do Sul. Só quase adulta descobri que essa “África do Sul” significava um mero protectorado. Aliás, a Namíbia libertou-se do jugo colonial apenas em 1990.

Nasci pois entre Angola e África do Sul, entre o deserto do Namibe e o inóspito Kalahari, num lugarejo suficientemente calmo para acolher um campo de refugiados, onde os brancos podiam sossegar os seus terrores nocturnos e apanhar um avião para o velho mundo. Sete dias depois, chegava a Portugal, embrulhada num xailezinho leve, ideal para o clima árido que tinha deixado para trás.



© stories.namibiatourism.com.na (Foto de Hougaard Malan)

















Nunca mais voltei a África – se exceptuarmos o Egipto e Cabo Verde, que têm um ambiente tão pouco africano, que quase me esquecia deles – mas o bichinho tem-me acompanhado desde que me lembro de ser gente. Não é apenas uma curiosidade que precisa ser saciada, é como se tivesse um vazio no peito à espera de ser preenchido no lugar onde nasci.

Há dias comecei a ler Um lugar dentro de Nós, do viajante profissional Gonçalo Cadilhe. Diga-se que não sou leitora assídua da chamada literatura de viagens, sou mais romance histórico ou pura ficção, com umas incursões ocasionais pelo fantástico e pelos contos. Mas o livro estava com 50% de desconto na Fnac e eu não resisto facilmente a este tipo de promoções literárias.

Por coincidência, a Namíbia inspira um dos primeiros capítulos do livro e o que li calou fundo na minha alma.



© worldtraveldesigner.it

© hdwallpaper.ws

© sonnenlaender.de




“Ao fim do dia, com o pó que sacas da garganta construías um muro de argamassa para a tua casa. E com as pedras em que tropeçaste levantavas um molhe de protecção de uma barra de litoral. E com as montanhas que te delinearam o horizonte protegias melhor um império do que qualquer Grande Muralha. E com a beleza que te encheu a alma já não precisas de acreditar em mais nenhuma eternidade senão a do teu olhar”.

As cores, infantis e isoladas como “se fosse um menino-deus a colorir desajeitadamente estes espaços”, a paisagem que convida à introspecção (“quem viaja pela Namíbia pode pensar que a vida aqui foi feita antes da palavra”), o excesso de luz e de infinito: eis que (re)descobri a viagem da minha vida.






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28 comentários

  1. Ruthia, querida
    Não me admira que a tua viagem de sonho seja a Namíbia. O chamado de África é muito forte!
    Os anos que vivi em África foram inesquecíveis, o livro que estou escrevendo é, precisamente, sobre as minhas recordações de África, e penso que quem conheceu África não a esquece jamais.
    Ora trazendo-a "no sangue"... como se pode esquecê-la?
    Gostei do texto e MUITO das imagens.

    Bom fim de semana.
    Beijinhos

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    1. A minha mãe também sofre desse mal. Gostava de morrer na "sua terra". Aguardo ansiosamente pelo seu livro.
      Beijinho

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  2. Depois deste post fiquei com vontade de ver pessoalmente.

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  3. Voltar às origens, encontrar a nossa "casa". Não é isso que todos procuramos? A "casa" não é o local onde repousam os nossos ossos, e sim o local onde "repousa" a nossa alma.
    Quem sabe ao encontrares a tua "casa" te descubras a ti própria? Por vezes só sabemos que andámos perdidas quando nos encontramos...
    Um beijo enorme com muitas saudades!

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    1. Sempre me conheceste com esta ansiedade, não é? Fome de algo mais. Talvez a alma sossegue em África...

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    2. Talvez por isso as nossas almas se acarinharam tão bem. Talvez por serem irmãs gémeas nesta "fome de casa".
      E nestes últimos anos sei bem o que é essa fome. Só quando descobri a "casa" que sempre procurei, e consequentemente me encontrei, é que percebi que afinal tinha andado mais perdida do que pensava. E alma ficou bem mais calma... Um longo caminho a percorrer, todos os dias.

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  4. Ruthia, após ler e adorar mais uma vez suas historias de vida, compartilhei no G+:
    "lindo demais! adoro esta minha amiga blogueira! eu gosto de historias!"

    Bjs

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    1. Obrigada pelo carinho, Sissym. Na verdade, tenho tantas histórias que a minha vida dava um filme. Como a de todos, suponho.
      Beijoca

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  5. Quando se diz " ... a magia de Africa ... ", não é mera frase feita, chavão usual que dá jeito para quando não há mais para dizer, ou não se sabe o que mais dizer. Não, não é!! É mesmo de magia que falamos.
    E tenho a certeza que será emocionante ver através dos teus olhos e sentimentos, essa África que te viu nascer, que não conhecesses mas que " é como se tivesse um vazio no peito à espera de ser preenchido no lugar onde nasci"...
    Oxalá realizes o teu sonho rapidamente minha querida.

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    1. É tudo menos chavão, querida Guida. Mas este sonho é caro: viste o link da viagem? Duas semanas, acampar sob aquelas estrelas imensas, percorrer o país, fica a mais de quatro mil euros. E penso que deve ser uma viagem muito desgastante para fazer com um filho pequeno. Tenho muito que meditar (e poupar).
      Beijinho

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  6. Querida Ruthia
    Ja estou a imaginar uma publicaçao com fotografias belissimas da Namibia e a minha amiga a enriquecer a beleza da paisagem!
    Bons preparativos e uma excelente viagem.
    Nao pense,nao adie;va! E seja muito feliz.
    Todos gostamos de saber e conhecer as nossas origens.e perfeitamente natural.
    Bom fim de semana.
    Beijinhos
    Beatriz

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  7. Ruthinha, sou louca para conhecer a Africa. Mas para você poder voltar lá sem duvidas será mto mais especial e com sabor de muitas lembranças, né?!
    Tenha um ótimo fim de semana!
    Beijos, Té
    bloglola.com.br

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  8. Obrigada, Ruthia! ;D

    Ótimo sábado!

    Beijo! ^^

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  9. Ruthia!
    Não sabia que era sul africana.
    Deve ter sido bem comovente poder ver um pouco mais de suas raízes, retratadas de alguma forma, falando sobre a cidade que nasceu?
    Já pensou em fazer nova viagem por lá? Ie nos lugares onde nasceu?
    Obrigada por visitar e blog e deixar seu recadinho por lá. Retribuo o carinho e desejo um ótimo final de semana!
    Luz e paz!
    cheirinhos
    Rudy
    Blog Alegria de Viver e Amar o que é Bom!
    “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa)

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  10. Ruthia, nasceu na Namíbia? Mas que máximo!!! Nunca poderia ter imaginado uma coisa dessas, não que isso vá mudar, mas sempre ouvi falar da Namíbia, nunca vi ninguém falar de lá e sempre me lembro de Angelina Jolie que adotou um filho de lá.
    Adorei! Tô aqui imaginando as maravilhosas fotos e os relatos escritos que soam como música nos nossos ouvidos....
    Vá, querida, e traga Namíbia pra gente!

    Um maravilhoso fim de semana!
    Beijos

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  11. Oi Ruthia, eu não sabia da história do seu nascimento. Sabe que hoje mesmo a minha filha veio me falar de fazer viagem para a África? Fiquei com vontade de ler o livro.
    Uma ótima semana pra você
    beijos
    Chris
    Inventando com a Mamãe

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  12. Depois deste texto cheio de encantos, estou a esperar com ansiedade pela sua volta ao tempo e reencontrar suas origens Rhutia.
    Que seja logo amiga.
    Lindo domingo a voces.
    Um carinhoso abraço.
    Beijo de paz e luz.

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  13. As vezes precisamos buscar as nossas origens para nos reencontrarmos...uma história de vida um tanto emocionante a sua...e vamos junto nessa, quero saber de cada passo....srsrsrr...isso que é viver em emoções sem sair de casa no meu caso....felicidades querida...e tudo que buscar haverá de encontrar....bjim.

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  14. Que bonito! Não me lembro de ter lido literatura de viagens, exceptuando a tua aqui no blogue ;)
    Beijinhos, boa semana!

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  15. Pensei ter deixado um comentário, mas algo não funcionou :(
    Bem, eu penso que todo o ser humano deseja um reencontro com as suas raízes, senão um regresso. E pelo que conheço de pessoas que nasceram em África, este chamamento é comum e forte. Por isso desejo que a Ruthia consiga esse regresso algum dia.
    De África conheço apenas a Tunísia, e também não me parece que seja África verdadeiramente. Tenho o bichinho das viagens e há uma infinidade de lugares, cidades e países que desejo conhecer, no entanto, confesso, é um continente que me atemoriza, receio muito as emoções e frustrações que me provocaria. Embora seja o berço da humanidade, não sinto esse chamamento em mim.

    Beijinhos

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  16. Ruthia,
    Há coisas que têm mesmo que ser feitas. A crónica de Gonçalo Cadilhe, deduzo, ainda aguça mais o apetite. Há, pois, que colocar a peça que falta no puzzle.

    Beijo :)

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  17. são paisagens lindas, mas é um lugar que eu deixaria para depois para visitar
    passando para desejar uma semana repleta de alegrias e realizações, com muita saúde, amor e paz
    bjs
    tititi da dri

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  18. Que maravilhoso relato! Nas origens está nossa identidade! Lindas imagens e pensamentos! bjs,

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  19. Olá! Que surpresa! Acho que vc é a segunda européia que conheço que nasceu em país africano.
    Tenho alguma curiosidade para ir à Africa, esse continente surpreendente.
    Beijinhos, sob o calor escaldante do Rio de Janeiro, quase africano.

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  20. Ruthia, seu belo relato parece comprovar o que penso sobre alguns livros procurarem seus leitores. Esse achado na Fnac certamente não foi por acaso uma vez que veio aguçar o sentimento atávico que a liga à Namíbia. Fico agora a imaginar a emoção que sentirá ao voltar a esse lugar de paisagens amplas e luminosas!
    Gde abraço!
    #Estou de volta... devagarinho, mas de volta :)

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  21. Ruthia, querida
    A minha modesta incursão no campo da poesia deu origem a um post que publiquei hoje, dia 30.
    Devo continuar? É melhor desistir? Qual é a tua opinião?
    Aguardo-te na minha «CASA», para te pronunciares…
    Obrigada.
    Beijinhos

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  22. Ruthia,
    A África faz parte da minha vida, do meu percuso, por várias razões. Há no continente africano algo que não pode explicar-se, que só pode viver-se por quem o descobre com a mente e o coração abertos.
    Que essa vontade de voltar a África se transforme em sonho realizado e que o sonho contribua a preencher a memória de perfumes inesquecíveis, paisagens incomparáveis, sons irresistíveis e pessoas insubstituíveis.
    Boa viagem! :)
    Um beijinho.

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!