Diários da China: Zhuhai 3

by - 10:51



Com a minha nova amiga espanhola, Virginia Velilla.

Cerca de dois mil quilómetros separam Zhuhai de Pequim, o que se traduz em 17 horas de viagem de comboio ou dois dias de autocarro. Provavelmente, muitos moradores do sul nunca visitaram a capital, terão ouvido falar da grandiosidade e da perfeição da Cidade Proibida e de outras construções imperiais mas, como se sabe, muitas pessoas não têm qualquer capacidade de abstração ou compensam a falta de imaginação com a tradição. "Sempre assim se fez" e ponto final.
Perdoem esta minha tirada existencial, na verdade não posso dizer que conheço os chineses só porque tenho alguns amigos dessa nacionalidade ou a partir desta breve experiência num cantinho do seu imenso território.
De qualquer forma, é bem conhecida a sua tendência para copiarem em vez de criarem, fazem réplicas de Rolex e malas Prada mas tive dificuldade em encontrar uma loja de roupa tradicional. E nem me quero lembrar do pastel de nata made in China que provei... A civilização chinesa já não é a mesma que inventou o papel e a pólvora.
Em Zhuhai, existe uma réplica do Palácio de Verão de Pequim, preciosidade que tive oportunidade de visitar. A ideia foi recriar parcialmente o grandioso complexo de jardins e palácios de Yuan Ming (cinco vezes maior do que a Cidade Proibida), parcialmente destruído no século XIX, durante a segunda guerra do ópio.


Alunas da Coreia do Sul celebram o ano do carneiro.





A fachada é impressionante mas o desapontamento foi crescendo, desde o momento em que entrei no recinto. É com muita pena que escrevo isto, mas afirmo-o de uma forma categórica: conseguiram transformar um espaço que se pretendia pedagógico/museológico numa feira de horrores.
Como descrever o Novo Palácio Yuan Ming? Um cruzamento entre um parque aquático e uma feira da Disney deprimente? Podem achar que exagero, já que conheço muitos sítios históricos na Europa, portanto os meus termos de comparação serão exigentes...
Emoldurado por grandes montanhas verdejantes, o espaço está dividido em três áreas. A primeira inclui o portão da Rectidão e da Honra e o palácio onde se resolvia assuntos de Estado. Existe ali uma placa que diz "governo diligente e talentoso" (动政亲贤, dòng zhèng qīn xián) da autoria do imperador Kangxi, apelando ao empenho na governação e à cooperação com os seus conselheiros.
Na segunda, estão os aposentos privados do imperador, os "nove continentes de clareza e calma", com vários edifícios voltados para o belo Lago Fuhai. No meio deste, existe um terraço que acharam por bem baptizar de "terraço de jade da ilha paraíso". Por fim, a terceira área tem claras influências do barroco, revelando a curiosidade de alguns governantes da dinastia Qing para com os ocidentais.

Obras de arte em caramelo: um macaco e um dragão.
Era possível encomendar qualquer figura do zoodiaco chinês.
Cliquem na imagem,para ampliar.


Tudo isto parece muito bem, não fosse pelo facto de não existirem folhetos informativos sobre o que estamos a ver e sermos constantemente interpelados por vendedores, que nos tentam impingir uma fotografia. O preço da fotografia dependerá do fato que escolhermos, sendo os do imperador e imperatriz obviamente mais caros. 
Escolhida a indumentária, passa-se pela caracterização: sim, existe uma pequena penteadeira para compôr o penteado e a maquilhagem. Segue-se a pose para o fotógrafo no trono ou noutro espaço qualquer, perante dezenas de espectadores. Escusado será dizer que quem não comprou uma fotografia não tem acesso a esses lugares especiais. Ou queriam sentar-se no trono dourado sem pagar?
Logo ao lado - na verdade não existe qualquer separação - fica a Lost City, um parque de diversões com carrosséis, escorregas de água e barraquinhas de souvenirs manhosos. Portanto, esqueçam qualquer estado zen que um lugar como este poderia oferecer a um ocidental em busca de si mesmo.
Encontrei essa tranquilidade num templo em Foshan, uma outra cidade da província de Guandong, mas sobre isso falar-vos-ei noutra entrada deste diário irregular.




O primeiro álbum de fotos da China já está online, na página 
d'O Berço no facebook (espreitem aqui).

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13 comentários

  1. Estás aproveitando bem por lá e graças à tua experiência em outros lugares, sabes muito bem apontar o que te decepciona e o que te encanta! Sempre ha esses dois lados! bjs, lindo fds! chica

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  2. Olá, Ruthia, és uma grande observadora e acho que o teu desapontamento, se deve ao interesse dos chineses em tirar o máximo de proveito de seus sítios históricos. Reproduzem, sem o devido respeito aos verdadeiros, apenas com a intenção de explorar e lucrar com os turistas.
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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    1. Bem, neste caso, o Palácio resulta de iniciativa privada. Inicialmente cobravam entrada mas passou a ser de acesso gratuito, para atrair mais visitantes. Mas isso quer dizer que têm que inventar receitas noutro lado...
      Abraço Teresa

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  3. Oi, Ruthia.
    Muito interessante e esclarecedor seu post.
    Princialmente para quem tem a ideia, de encontrar o "paraíso zen", na China.
    Acredito que essa visão oportunista de lucrar com o turismo está, mesmo, modificando a realidade cultural e histórica de muitos lugares no mundo.
    Muito se aprende aqui com você e suas dicas.
    Parabéns, mais uma vez, pelo ótimo artigo.
    Abraços e lindo fim de semana.

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  4. "Obras de arte em caramelo"? Que coisa excelente!

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  5. Olá amiga, vim desejar-lhe um abençoado início de mês, e lindos dias
    de outono que se aproxima!
    IMAGENS ENCANTADORAS...CULTURA MARAVILHOSA!

    Doce abraço Marie.

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  6. Ruthia,

    Sobre pagar para poder sentar-se no trono (alias, lindissimo), acho que em muitos lugares do mundo tem que dar para receber. Puxa, isso me fez lembrar de minha filha querendo falar com o Papai Noel e só podia chegar perto e fotografar se pagasse!

    Sobre seu passeio deste post, uma coisa que me chama a atenção é que há muita cor. O que torna mais alegre o visual que é muito bonito.

    Bjs

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  7. Já disse aqui que esta sua viagem é encantadora! Este país imenso merece ser explorado nos mínimos detalhes. Realmente, a capacidade deles para copiar qualquer coisa do mundo todo é impressionante.....agora, pastel de nata "made in China" eu nunca tinha visto, rs rs!
    Esta sua jornada é inspiradora, e as fotos conseguem traduzir um pouco disso tudo!

    Beijinhos Ruthia!
    Bia
    www.biaviagemambiental.blogspot.com

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  8. OI RUTHIA!
    UMA VIAGEM E TANTO, PELAS FOTOS DÁ PARA SE PERCEBER A BELEZA DOS LUGARES ONDE ESTIVESTE NA CHINA EMBORA POR TEU TEXTO, PERCEBE-SE UMA CERTA DECEPÇÃO DE TUA PARTE, SOBRE ALGUMAS COISAS O QUE É NATURAL VISTO CONHECERES TANTOS LUGARES O QUE TE TORNA BASTANTE CRÍTICA.
    ADOREI COMO SEMPRE, SÓ SENTÍ FALTA DO "PEDRO" TEU COMPANHEIRO DE PASSEIOS.
    FUI ATÉ O FACE E DEI UMA OLHADA NAS FOTOS, POSTERIORMENTE O FAREI DE FORMA MAIS DEMORADA.
    ABRÇS
    -http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  9. Muito legal conhecer um pouco da China, contado por você. Eu sempre tive uma imagem da China, como um lugar tranquilo, e meditação, mas pelo que você nos conta, está muito mais pra comércio, e pastel made in China, foi o melhor :)

    Obrigada pela visitinha.
    beijinhos ;*

    http://noostillo.blogspot.com.br

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  10. Sempre muito atenta a tudo!
    Fiquei levemente agoniada a pensar em como seria o pastel de nata...
    E contava ver-te caracterizada como imperatriz, como maquilhagem e tudo!
    Beijinhos, boa quarta! Já chuvisca para estes lados...

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    Respostas
    1. Seria uma coisa linda de se ver.... mas não tenho dinheiro para essas coisas :)
      Beijocas, também já caíram umas pingas aqui em Trás-os-Montes

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  11. Legal o passeio neste berço ainda que com os transtornos enumerados e degradação cultural.
    Belas imagens que bem retrataam sua passagem.
    Valeu amiga.
    Meu abraço com carinho
    Bju de paz.

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!