Diários da China: Zhuhai 4

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Diz o ideário marxista que a riqueza deve ser justamente distribuída, certo? Acontece que política é política e economia é economia. Conduzir um Porshe na China já não é visto como um vício ocidental, importado do capitalismo. Um empresário pode ganhar cinquenta vezes o ordenado de um trabalhador comum e levar um estilo de vida compatível.
O consumo também está lá nos píncaros, como podemos constatar no bairro de Gongbei (拱北Gǒngběi), especialmente na Rua do Lótus (莲花路Liánhuālù), completamente repleta de lojas, restaurantes, barraquinhas de comida, bares improvisados... Muitos homens de negócios terminam aqui o dia, a beber, a jogar aos dados e a gracejar com as raparigas da noite.
Não esperamos que exista turismo sexual na China de Mao Tsé-tung e da revolução cultural, mas Gongbei é frequentemente descrito como o recreio hedonista dos empresários de Hong Kong, Taiwan e Macau (que fica, literalmente, ali a dois passos). Vimos várias dessas trabalhadoras, nos cabeleireiros do bairro, preparando-se para a noite. 
Nos casinos de Macau também se pode contratar o pacote completo: jogo, compras, estadia e acompanhante. Falaram-me ainda da existência de barquinhos enfeitados, em alguns pontos do rio das Pérolas, onde é igualmente possível encontrar-se companhia feminina.







Mas tergiverso. Voltemos a Gongbei que, para além das noites animadas, é conhecido pelas lojas de rua e ainda pelo centro comercial subterrâneo, remotamente parecido com um bazar marroquino, com os seus corredores labirínticos.
Nunca dominei a fina arte do regateio, mas aqui é essencial se alguém quer mesmo aquele fake Rolex, aquela fake Yves Saint-Laurent, ou qualquer brinquedo eletrónico. Infelizmente, encontrar roupa tradicional chinesa de qualidade é quase uma missão impossível.
De qualquer forma, dialogar com os vendedores é um passatempo muito divertido e também passo muito tempo (talvez demasiado) a olhar para todas as embalagens expostas nas prateleiras do supermercado, a tentar ler ou simplesmente adivinhar o que contêm. Tenho feito algumas descobertas extraordinárias, como aperitivos de ervilhas com vários sabores, mas a que mais me orgulha foram as garrafas de aguardente chinesa (白酒, bái jiǔ) a 3,5 yuans. Isto é cerca de 50 cêntimos, minha gente. Toda a gente se foi lá abastecer!




Este é o último post sobre Zhuhai: vamos rumar a outras cidades do sul da China. 
Quem quiser conhecer um pouco melhor a cidade, a zona de Gongbei e ainda Macau, pode espreitar o vídeo abaixo (em inglês).




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15 comentários

  1. Ruthia,
    Viajante da China, tenho a certeza que muito (quase tudo, para lá do roteiro turístico) ficou por descobrir. Mas o Pedrito, a pouco e pouco, vai ficando com uma bagagem de se lhe tirar o chapéu. E assim se constrói, com substância, um verdadeiro cidadão do mundo.

    Um beijinho :)

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  2. Uma China muito distante daquela imaginada pelos ideólogos da Revolução Cultural...

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    1. O Mao Zé-Tsung deve estar às voltas no túmulo, Marta!

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  3. Obrigada pela partilha. China é um dos muito locais onde nunca irei.
    Fui procurá-la no google. Todos os linKs dos blogues, com nomes a começar por letra superior a F, desapareceram do Sexta. Há dois dias que os ando procurando.
    Um abraço e boa viagem.

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  4. agora fiquei curiosa... gostaria de poder passear entre as várias lojas....e viver um pouco dessa confusão cultural.. bjs

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    1. Dri, imagino vc com a sua amiga Sandra naquele centro comercial. Teriam que ser arrastadas para sairem de lá. E, com certeza, precisariam de muita ajuda para carregar as compras, hehe!
      Beijinhos

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  5. Adoro saber mais do mundo que está tão distante de mim. Amei ler seu post e saber mais sobre a China. Bom demais.
    Beijos
    Adriana

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  6. Ruthia, você me mostrou um lado da China que desconhecia existir. Não é essa a visão que, por aqui, tão distantes de lá, nos chega. Você apresenta aspectos diferenciados dos lugares que visita. E nos acresce. Bjs.

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  7. Sempre considerei a inveja um sentimento pra lá de ruim...mas, sinceramente, bem que eu estou inveja de você, Ruthia: uma inveja saudável ( se isto é possível!) ...diga-se de passagem!
    Ver a China pela sua visão, é bem diferente do que costumamos ver por aí!
    Obrigada, beijos!

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    1. Obrigada eu pelo carinho e pela presença sempre tão regular por aqui! Viajar é o único motivo pelo qual se pode invejar os outros, querida Lúcia.

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  8. Vim aqui parar vinda de um blog amigo e resolvi não perder pitada.
    Por isso, já estou a segui-la.
    Inquieta e devoradora do mundo, gostei muito de encontrar aqui, em si,
    essas facetas que me são muito queridas.

    Bj
    Olinda

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    1. Olá Olinda, seja muito bem vinda. Espero que se sinta em casa. Retribuirei a amável visita com a brevidade possível.
      Beijinho

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  9. Boa tarde, em todo lados muda-se o tempo muda-se as vontades, com maior ou menor rapidez a economia chinesa e o estilo de vida do seu povo vai ser conforme aqueles que dominam o mundo querem que seja.
    AG

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  10. Pois é amiga seus relatos com olhos clínicos ficou interessante nesta postagem sobre esta cidade e comportamentos humanos. Não se pensava sobre esta coisa da noite que muito se parece com a Sâo Paulo e Rio daqui. Mao não poderia voltar mesmo.
    Muito boa sua observação e analises e gostaria de ler e ver mais sobre esta parte sub.
    Um carinhoso abraço amiga.
    Beijo

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  11. Made in China, quem no mundo não tem uma etiqueta dessa? rsrsrs

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!