Si vienes a Madrid, ya eres de Madrid

by - 06:02




Já é tempo do meu coração e a minha cabeça se despedirem do Oriente e retornarem à Europa, para se juntarem ao corpo que está cá há mais de dois meses.  O regresso faz-se por Madrid, a cidade espanhola que disputa com Barcelona as preferências dos turistas.
Como comparar a excêntrica Barcelona, banhada pelo mar, à recatada capital madrilena, plantada no meio do país? Madrid, a sede da monarquia, foi o centro de um vasto império, pilar da fé católica, da fanática Inquisição e da evangelização forçada das Américas. Barcelona foi uma (re)invenção do século XX, sustentada por grandes eventos como os Jogos Olímpicos (1992) e o Ano Gaudí.
Madrid é um expoente artístico, com os Goya, os Velasquez, os Mirós e a mítica Guernica que habitam a tríade Prado, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza. Barcelona é a exuberância da Casa Batló, do Parque Güell e da Sagrada Família. Madrid é a majestade do Palácio Real e a elegância do Parque do Retiro. Barcelona veste uma camisola listrada com o nº 10 (do Messi), enquanto Madrid, como se sabe, adora o nº 7 do Cristiano Ronaldo.
Mas as eternas rivais têm muito em comum, a começar pelas tapas, a forma como os habitantes vivem la calle, os gestos expansivos e as palavras que voam, rápidas e em bom som.
Palácio das Comunicações e, em frente, a Fonte de Cibeles.

A caminho da Gran Vía.

O transfer despeja-me na Praça de Cibeles, onde a imponente deusa foi eternizada em mármore sobre um carro puxado por leões, segurando as chaves da cidade. Sigo para o Palácio das Comunicações, por sugestão da Susana, do blog Desbravando Madrid (link aqui), que foi tão amável que até preparou um mapa para o meu roteiro personalizado. Que belo é este palácio, que em tempos funcionou como uma mera central de correios: há por lá arte contemporânea, espaços de leitura, um miradouro.
Da Porta de Alcalá, que Sabatini projetou a pedido do modernizador D. Carlos III, desço a Broadway madrilena, que é o mesmo que dizer Gran Via, a avenida movimentadíssima com carros, lojas e teatros, vislumbro o D. Quixote e outras personagens de Cervantes na Praça de Espanha, para chegar ao Templo de Debod, o cantinho egípcio, onde encontro outra viajante solitária, de Hong Kong e a estudar em Londres.
Um templo núbio-egípcio é muito estranho no contexto madrileno, já que os dois países não tiveram grandes ligações históricas. Na verdade, tratou-se de uma oferta do Egipto por causa do apoio espanhol junto da Unesco que culminou na mudança, pedra a pedra, do templo de Abu Simbel que corria o risco de ficar debaixo das águas do Nilo (recordem Abu Simbel aqui).

Ao longe, destacam-se os pináculos do Palácio Real, uma das residências oficiais dos Borbón, inspirado nos desenhos de Bernini (sim, continuo apaixonada pelo napolitano) para a construção do Louvre. E ao lado, fica a Catedral de Almudena, onde os atuais reis de Espanha se casaram sob a bênção da padroeira da cidade. 
© queveren.org/

Os turistas juntam-se aos magotes por aqui, pelo que arrepio caminho logo depois de conhecer a Virgem de Almudena, a mais preciosa relíquia local, que terá sido trazida por um discípulo do apóstolo Santiago em 38 d.C., e que ficou escondida durante os 300 anos de domínio muçulmano!
Por esta altura, os roncos da fome tornam-se audíveis, pelo que rumo ao super charmoso Mercado de San Miguel, onde pequenos aspersores refrescam o ambiente, os petiscos consolam a alma e imensa gente mete conversa comigo (ouvi até alguns elogios inesperados, que me fizeram corar como uma adolescente)!
Mas ainda há muita cidade para palmilhar, a começar pela histórica Plaza Mayor, da época dos espadachins, onde se faziam autos-de-fé mas também beatificações, coroações e até corridas de touros. Sento-me no chão desta praça pejada de gente, a absorver a energia do lugar, repetindo os mesmos gestos junto da buliçosa Porta do Sol, onde os madrilenos olham ansiosamente o relógio da Casa do Correio, para celebrarem a passagem de ano.
A minha passagem ultrassónica por Madrid termina no Parque El Retiro, de uso exclusivo da família real até ao século XVIII e hoje um fenómeno de sucesso, palco de tantos eventos que os ecologistas se queixam da excessiva pressão humana: os castanheiros das Índias até estão a perder as folhas, coitadinhos! 
Passeio apenas uma hora neste belíssimo espaço verde que se estende por 125 hectares, antes de voltar ao aeroporto Barajas, onde uma mala e um voo me esperam. 

Muito obrigada à autora do Desbravando Madrid por ter planeado este roteiro 
de um dia para a menina d'O Berço do Mundo.




Preço do transfer (aeroporto express): 5€
Serviço de guarda-malas do aeroporto de Barajas: 10€ por mala (para mais de 2 horas) Verão 2015

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14 comentários

  1. Excelente post. Ando a pensar é na situação política gerada pelo separatismo na Catalunha. Semana passada esteve aqui um amigo de um sobrinho; o rapaz é de Barcelona, e sequer pode tolerar que o chamem espanhol...

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    1. Verdade, Marta. Eu, que nasci num continente, moro noutro depois de ter passado por um terceiro (para além destas deambulações pontuais) não entendo muito bem esse sentimento patriótico que gera radicalismos. Desejo sinceramente que não voltemos à época da ETA.
      Beijinhos

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  2. Nunca fui a Madrid. Tão pouco a Barcelona. Esta última suscita-me uma grande vontade de conhecê-la, não sei se o conseguirei algum dia. Conheço grande parte da Andaluzia, e um pouquinho da Galiza.
    Obrigada pela partilha destas suas viagens.
    Um abraço e bom fim de semana

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  3. Olá, Ruthia

    Aqui em "O Berço do Mundo" sinto-me muito bem. Renasço através das suas viagens e dos seus relatos. Então por que motivo demorei tanto tempo a aqui voltar? Bem, poderia dizer que estive sem acesso à Internet durante uns dias, etc, etc, etc... mas, e antes disso? Não há desculpa possível, como se vê. Portanto, tenho de recuperar o tempo perdido e empreender uma viagem aos seus posts de modo a beneficiar de tudo o que aqui nos oferece.

    Hoje, neste texto e fotos de Madrid revivi locais e cheiros e a comparação tão bem conseguida entre esta e Barcelona. Dei um salto até Abu Simbel, fiquei a conhecer a menina do Desbravando Madrid e os blogueiros de Língua portuguesa.

    Voltarei.

    Muito obrigada, Ruthia, Desejo-lhe um bom fim de semana.

    Bj
    Olinda

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    1. Cara Olinda, o seu comentário deixou-me muito feliz. O tempo às vezes escapa-se-nos por entre os dedos e deixamos para trás algumas coisas que nos dão prazer. Mas não se preocupe, O Berço não vai a lado nenhum, portanto explore à vontade quanto e quando puder.
      Muitos beijinhos e um lindo domingo

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  4. Olá, querida Ruthia
    Muito linda a cidade a nós mostrada com tanto esmero...
    Que bom passar por aqui e poder passear um pouco!!!
    Bjm fraterno

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  5. Boa tarde, dos cinco continentes já viveu em três, agora está na Europa que é a mãe da cultura e do desenvolvimento mundial, a linda cidade de Madrid revela a cultura que exportou para todo o mundo.
    AG

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  6. Ruthia, à medida que as suas crónicas avançam, não deixo de constatar que as referências de lugares cada vez mais se (entre)cruzam. Pois é, a globalidade começa a ser um facto, embora muito ainda haja para conhecer.
    Também a qualidade dos textos vais sofrendo alterações, para melhor, em que a capacidade de análise surge mais fluída, mais escorreita, mais eficaz...
    Dito isto, é sempre um momento grato passar por aqui.
    Um viva à sua capacidade e... um olé ao Pedrinho :)

    Uma boa semana :)

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  7. um roteiro e tanto amiga querida, e já estou indo lá conhecer aquele canto, que certamente vai me ajudar, qdo for para Madri em 2017, claro que após passar por terras lusitanas para te levar, no mínimo, mais 1/2 kg de chocolates!
    bjs

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  8. Realmente, os nossos vizinhos desenvolveram-se que não foi brincadeira, basta ir aqui acima, a Vigo, que é uma cidade "secundária", e observar a imponência da arquitectura!
    Um dia espero ir a Madrid, em Barcelona estive só de passagem.
    Beijinhos escritos com as mãos frias, preciso de ir assar umas castanhas :)

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  9. "A AMIZADE VERDADEIRA SORRI NA ALEGRIA,
    CONSOLA NA TRISTEZA,
    ALIVIA NA DOR E
    SE ETERNIZA EM DEUS"(J.Calvet)
    UM GRANDE ABRAÇO, MARIE.

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  10. Morei por 10 anos muito perto da Espanha mas, infelizmente não tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente...Falo espanhol, lia suas revistas, sabia tudo o que se passava lá mas nunca pude ir...Uma pena! Quem sabe um dia?!

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  11. Madrid é um sonho que ainda quero viver! Esta cidade parece respirar história e as fotos que vejo das construções deste lugar me encantam demais.

    Parabéns pelo relato. Curto muito a forma como você escreve

    Abraço!

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  12. Adoro Madri e espero poder um dia revisitar a cidade! Parabéns pelo relato. Abs

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«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.» (Gustave Flaubert)

Obrigada por ler as minhas aventuras e ainda gastar um momento para comentar. A sua presença é muito importante para mim. Um abraço e até breve!